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CURIOSIDADES


VIOLA DE COCHO

A viola de cocho recebe este nome porque é feita num tronco de madeira inteiriça, sendo esculpido de forma artesanal e escavado na parte que corresponde à caixa de ressonância. Tem o formato de uma viola e é tocado com cinco cordas, que originalmente eram feitas das tripas de alguns animais.

 

A palavra cocho, para o homem do campo, identifica uma tora de madeira escavada, formando uma espécie de recipiente muito utilizado para se colocar sal para o gado, nas pastagens das fazendas. 


A viola de cocho, encontrada no pantanal do Mato Grosso, recebe este nome porque é confeccionada em um tronco de madeira inteiriço, esculpido no formato de uma viola e escavado na parte que corresponde à caixa de ressonância. Nesse "cocho" é afixado um tampo e as partes que caracterizam o instrumento, como o cavalete, o espelho, o rastilho e as cravelhas. 0 seu comprimento é em torno de 70 cm por 25 cm, com 10 cm de largura. Algumas violas possuem um pequeno furo circular no tampo medindo de 0,5 a 1 cm de diâmetro, outras não. A viola sem furo é coisa recente. Um violeiro justificava que a viola com furo dava muito trabalho, porque sempre entravam, por este furo, aranhas ou outros bichos, prejudicando o som do instrumento. Já os violeiros antigos preferem-na com o furo, pois, no dizer de um deles, “o furo é prá voiz ficá mais sorta, sem o furo a zoada fica presa”.


Esse é um instrumento de origem asiática que abrasileirou-se na madeira, nas cordas e no jeito de tocar. A viola de cocho surgiu e só existe em um único lugar do mundo: em Mato Grosso. Os cuiabanos têm um jeito especial de pronunciar o ch e o x. Eles costumam colocar um t antes. Peixe, por exemplo, é petxe. Então, é viola de cotcho, o instrumento que deu vida aos ritmos pantaneiros como o cururu e o siriri.


O siriri é um dos folguedos mais populares e antigos do Estado. O siriri é dançado por homens, mulheres e crianças e possui uma coreografia em roda ou fileiras, formada por pares que se movimentam ao som da viola de cocho, mocho e ganzá. 


Assim como o siriri, o cururu é uma das mais fortes expressões culturais da nossa gente. Executado especialmente por homens, que dançam e cantam em louvor aos santos de devoção, citando passagens da Bíblia, saudando pessoas da comunidade ou fazendo referência aos acontecimentos políticos.


A viola de cocho é um instrumento bem primitivo e o número de trastos ou pontos varia entre dois ou três. Quando a viola possui três trastos, o intervalo ente eles é de semitom; quando possui dois trastos, o primeiro é de tom e o segundo de semitom. Os pontos são feitos de barbantes revestidos com cera de abelha para se fixarem melhor na madeira, no dizer do violeiro "prá garrá, prá firmá, senão ele joga... tano seco ele joga".


São várias as madeiras utilizadas: para o corpo do instrumento, a chimbuva e o sarã; para o tampo, raiz de figueira branca; e para as demais peças, o cedro. A colagem das partes é feita usando o sumo da batata de sumaré (espécie de orquídea selvagem) ou um grude feito pelo cozimento de "pocas" de piranhas (bexiga natatória). Para fabricar o ins-trumento existem crenças e supertições que transformam esse artesanato em um ritual.


O primeiro passo é a escolha da madeira, que pode ser de várias espécies como a chimbuva ou timbaúba, sarã-de-leite, ou até mesmo mangueira. Só madeira mole.


O segundo passo, é que só se pode cortar a árvore em período de lua minguante porque, segundo os fabricantes, se não for cortado nesse período dá broca em toda a madeira da viola.


Logo depois que é separado um tronco de mais ou menos quatro palmos de comprimento e dois palmos de diâmetro, o cururueiro já trata aquele pedaço de madeira como viola. Faltando, então, o processo de escultura e aperfeiçoamento, que é feito com capricho.
A afinação da viola de cocho varia de acordo com o violeiro. Existem duas afinações utilizadas, uma se derivando da outra, a canotio solto e a canotio preso.


As violas armam-se com quatro cordas de tripa e uma revestida de metal. Atualmente, as cordas de tripa estão sendo substituídas por linhas de pescar - segundo os violeiros, bem inferiores às de tripa -, devido à proibição de caça na região do pantanal. 


A corda de aço tem o nome de "canotio", e tem, aproximadamente, o mesmo calibre da quarta corda do violão. Os nomes das cordas são os seguintes: prima, segunda ou contra, do meio ou terceira, canotio e corda de cima. 


A preparação da tripa, para a confecção das cordas, é muito rudi-mentar e para explicar o procedimento adotado, transcrevemos, abaixo, o depoimento de Seu Gregório José da Silva, 74 anos, cururueiro da cidade de Poconé-MT, quando indagado sobre o assunto:
"- Ah, isto é fácil! O sinhô mata o animá, tira a tripa e limpa bem por fora, depois vira ela e limpa bem por dentro, bem limpadinho. 0 sinhô marra um fio dum lado e dôtro e troce bem trucido. Estira o fio duma árvre a otra, põe um pesinho e pronto. Ele vai estirano... estirano... vai secano...” E arremata: “Ah! fica que é uma beiêza!!!".


São vários os animais cujas tripas se prestam à confecção de cordas. Os preferidos são: o ouriço-cacheiro ou porco-espinho, o bugio (macaco de grande porte), a irara (espécie de lontra pequena) e o macaco-prego. A tripa de gato, apesar de dar boa corda, não deve ser usada pelos violeiros pois, segundo a tradição, com ela na viola dá muita briga entre os cururueiros.


A tripa do macaco-prego é muito usada, mas somente na época em que ele não está comendo formigas, pois, no dizer dos violeiros, as tripas ficam cheias de nós, provenientes das picadas, quando elas são engolidas vivas.
Com a chegada da televisão e do rádio na região, por volta dos anos 50, a viola de cocho começou a perder a popularidade entre a comunidade local, que a produzia de forma artesanal. Esse processo quase levou à extinção do instrumento. Mas nos últimos 15 anos, a viola de cocho virou essa triste página e voltou a ser um dos instrumentos mais populares do Mato Grosso, e parte dessa reviravolta aconteceu por conta do trabalho do músico Abel Santos Anjos Filho, que também é professor da Universidade Federal do Mato Grosso.


Abel esteve em Brasília onde lançou o livro “Uma Melodia Histórica”, no qual explora as raízes da viola de cocho e conta a história do instrumento desde antes da chegada ao Brasil.


Praticamente desconhecida no Brasil, a viola de cocho já é muito aplaudida mundo afora. A convite da ONU, num projeto sobre as diferentes músicas do mundo, o violeiro Roberto Corrêa fez uma série de concertos internacionais com este estranho mas admirável instrumento.


Suas origens são pouco claras, mas há quem postule que tenha vindo de São Paulo, acompanhando a expansão bandeirante para a região Centro-Oeste brasileira. A viola de cocho é usada em várias manifestações populares da região como o boi-à-serra, dança de São Gonçalo, folião, ladainha, rasqueado-limpa-banco (ou rasqueado cuiabano), e em festas religiosas tradicionais realizadas por devotos associados em irmandades.


A notícia mais antiga sobre a viola de cocho é do fim do século 19, dada pelo cientista alemão Karl von den Steinen, que descreveu as festas religiosas de Cuiabá onde se cantava o cururu ao som do instrumento
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FONTE: Revista Viola Caipira



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